Afinal, o que é populismo?

Saiba mais sobre este interessante tema político

 

 

Por Ana Tereza Duarte*

 

 

Com a ascensão ao poder de Donald Trump, nos Estados Unidos; o reaparecimento de líderes ultranacionalistas, na Europa; e a possível candidatura do militar da reserva Jair Bolsonaro, no Brasil, o tema “populismo” se encontra em alta, sendo recorrente nas colunas de opinião dos grandes jornais, pelos quais se observa que cada autor parece possuir o seu próprio conceito do que seja populismo – o que também ocorre dentro das Ciências Sociais.

Comecemos por esclarecer o que não é populismo. Com frequência, utiliza-se o termo populismo enquanto sinônimo de demagogo ou para fazer referência àqueles líderes cujas políticas são extremamente populares, que focam seu programa de governo em políticas públicas voltadas às classes menos favorecidas economicamente. Contudo, ser popular não é ser populista.

 

Donald Trump, presidente norte-americano

 

Outro equívoco que se comete no manejo do termo populismo é associá-lo exclusivamente a governos de esquerda. É verdade que os governos de Chávez e Maduro, na Venezuela, assim como os de Correa, no Equador, e de Morales, na Bolívia, foram e são governos populistas de esquerda, porém, não se pode esquecer que no início da década de 1990, com a redemocratização acontecendo em vários países da América Latina, surgiram vários líderes populistas neoliberais, a exemplo de Fernando Collor de Mello, no Brasil, que estava convencido de ser “a encarnação da nação”, único capaz de salvar o país e que atuava à margem das organizações políticas e sociais. Mais recentemente, viu-se a ascensão, nos Estados Unidos, de Donald Trump, presidente republicano com fortes traços populistas. De igual maneira, no Brasil, cogita-se a possibilidade de um militar da reserva, que possui uma relação paternalista-populista com seus seguidores, candidatar-se à presidência.

Afinal, o que seria um líder populista? Embora com políticas econômicas distintas (tanto que podem ser de esquerda ou de direita), o denominador comum a toda liderança política populista é seu caráter personalista, que busca dividir a sociedade em bandos, colocando uns contra “os outros”, desconsiderando o papel das organizações sociais e políticas (Freidenberg, 2007). Os líderes populistas são líderes delegativos que creem que são os únicos capazes de salvar o seu país, ou seja, os únicos capazes de tomar qualquer decisão política (já que receberam delegação por parte dos cidadãos, através das eleições), de maneira que o controle por parte das outras instituições de poder (Legislativo e Judiciário) constituiria um entrave à sua agenda política (O’Donnell, 1994).

 

“Os líderes populistas são líderes delegativos que creem que são os únicos capazes de salvar o seu país, ou seja, os únicos capazes de tomar qualquer decisão política”

 

A partir dessa definição de populismo é possível compreender que o líder populista tenta passar por cima das demais instituições de poder, ou seja, um populista buscaria controlar os demais Poderes, inclusive o Judiciário. Dificilmente um líder populista se deixaria ser investigado pelo Ministério Público e posteriormente condenado por um tribunal (v.g., é uma situação que dificilmente ocorreria com Maduro, na Venezuela).    

Essa relação paternalista entre líder-seguidor, assim como a tentativa de dividir a sociedade em bandos, queda clara também na forma de liderança de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, que, a cada dia, segrega mais a sociedade estadunidense (v.g., colocando os norte-americanos de origem europeia contra os norte-americanos de origem latina, africana ou asiática) e cujo discurso político quase sempre carrega algum conteúdo de ódio, como ao propor a construção de um muro separando os Estados Unidos do México. Em seu discurso inaugural, considerou a sua ascensão ao poder como sendo “o dia em que o povo se transformou de novo no governante da nação”, ou seja, um discurso altamente delegativo e populista.

 

Juan Perón, ex-presidente e ditador argentino, é mais um nome que prova que o populismo é bem antigo na América Latina

 

Nesse mesmo sentido, o possível candidato à presidência do Brasil, atual Deputado Federal e militar da reserva, Jair Bolsonaro, possui uma relação extremamente paternalista com seus simpatizantes, que o consideram o grande salvador da pátria e único capaz de acabar com a corrupção no Brasil. Muitos de seus seguidores o chamam de “Bolsomito”, como se ele fosse realmente um mito, um herói com superpoderes que os demais candidatos não possuem, muito embora ele, com habitualidade, profira declarações antidemocráticas.

 

 

*Professora da graduação em Direito da Faculdade de Ciências Jurídicas de Limoeiro-PE. Mestre em Ciência Política pela UFPE. E-mail: anaterezadlb@gmail.com.

 

REFERÊNCIAS

 

FREIDENBERG, Flavia. La tentación populista. Una vía al poder en América Latina. Madrid: Editorial Síntesis, 2007.

O’DONNELL, Guillermo. Democracia delegativa. Journal of Democracy, v. 5, n. 1, p. 7-23, 1994.

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