As implicações políticas da Reforma Protestante

Algumas reflexões sobre o papel político do protestantismo no Brasil e no mundo após 500 anos

 

 

Por Jorge Oliveira Gomes

 

 

Ontem, durante tudo mundo, foi lembrado o aniversário de 500 anos da Reforma Protestante (saiba mais aqui). As implicações políticas desse evento histórico foram decisivas para o destino da humanidade.

A Reforma Protestante teve seu estopim simbólico em 1517 quando um monge agostiniano chamado Lutero propôs um debate com a igreja católica ao, alegadamente, pregar suas 95 Teses (críticas públicas) contra o modus operandi e a doutrina da Igreja Católica medieval. Se engana quem pensa, no entanto, que a ruptura foi brusca. Lutero já havia tentado convencer seus superiores pelas vias hierárquicas e eclesiásticas, no entanto, não foi ouvido e ainda foi acusado de herege.

 

Representação de Martinho Lutero afixando suas 95 Teses, momento que marca simbolicamente o início da Reforma Protestante

 

A reforma protestante propôs que a salvação se daria tão somente através da fé em Cristo (não pelo merecimento ou pelas obras), condenou a venda de indulgências e trouxe para a centralidade dos cultos a bíblia. Esse evento completa essa semana 500 anos. Suas consequências religiosas foram claras, porém, no âmbito político, com o perdão do trocadilho, já são outros 500.

De cara, uma das primeiras consequências foi uma separação entre Igreja e Estado. O estado laico foi uma consequência importante da reforma, já que permitiria a liberdade religiosa, sem a qual o protestantismo sequer existiria. Além disso, a ideia de que os cultos deveriam ser pregados nas línguas locais – e não em Latim, como ocorria no Brasil e em algumas localidades do mundo até o início do século XX – incentivou o surgimento de Estados-Nação na época.

Uma das leituras mais clássicas das consequências políticas e sociais do protestantismo pode ser vista em Weber. O sociólogo percebeu, em sua obra “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, que o capitalismo floresceu mais em sociedades de tradição protestante, pois essas não criminalizavam o lucro e incentivavam a ideia de trabalho duro. As nuances antropológicas entre as tradições protestantes e católica também foram exploradas por Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, ao analisarem o caso brasileiro.

 

Max Weber, autor de “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”

 

No âmbito político, é difícil falar em um “perfil” bem desenhado do protestantismo. Há tendências, porém. Existe uma clara aversão teológica ao marxismo clássico e aos movimentos progressistas atuais, apesar de já ter havido tentativas de aproximação, como, para alguns, no movimento denominado Missão Integral. Na Igreja Católica essas aproximações foram bem mais claras com a Teologia da Libertação.

Além disso, recentemente, têm ocorrido mudanças no perfil político dos evangélicos. Tomemos por exemplo os Estados Unidos. Há algum tempo, religião era um tema quente na escolha dos evangélicos. Kennedy, católico, foi visto com bastante desconfiança por parte do eleitorado evangélico americano. Reagan sofreu bastante represálias de líderes religiosos protestantes. Todavia, hoje, o que conta mais é menos a profissão religiosa e o perfil “gospel” do candidato e mais sua aderência a temas polêmicos e de perfil conservador e caricato, como é o caso de Trump, autor da frase “I grab them by the p*ssy” (Eu as pego pela vag…).

 

Donald Trump recebeu apoio de vários setores protestantes da sociedade americana

 

O Brasil tem uma quantidade não trivial de evangélicos que, mesmo que em sua maioria não seguem o protestantismo histórico e tradicional, são também herdeiros (mesmo que bastardos) da Reforma. A única presidenciável que lembrou o tema dos 500 anos da Reforma foi Marina Silva. Ela o fez sem ameaçar o estado laico – que, como foi visto, ganhou força na Reforma. Marina é popular no meio evangélico, porém, Bolsonaro, cuja ligação com a ética cristã é nebulosa, cresce de vento em popa neste eleitorado. O ex-sargento elogia torturadores, xinga quilombolas e índios e coleciona frases de cunho moral nada recomendável. Contudo, não é problematizado em boa parte das igrejas que dizem seguir os ensinamentos da reforma. É, inclusive, benquisto por muitos pastores e seminaristas.

Do ponto de vista histórico, infelizmente, essa dissonância cognitiva não é anormal. Lutero, não obstante seu papel cívico-religioso fundamental, fez escritos anti-semitas. A Alemanha, berço da Reforma, também foi o berço do nazismo. Durante a ditadura militar brasileira, era comum brigas e provocações entre os estudantes da faculdade presbiteriana Mackenzie (defensores do regime) e os estudantes da USP (críticos do regime). No catolicismo, não é diferente, vale ressaltar. A ligação da Igreja Católica com o fascismo foi escancarada, para citar apenas um exemplo. Por outro lado, países de tradição protestante apresentam os melhores índices de respeito às minorias e são mais progressistas, abertos e cosmopolitas segundo o World Value Survey.

 

O deputado Jair Bolsonaro vem recebendo apoio de vários setores evangélicos no Brasil

 

Há algum tempo, o perfil de protestantes que se engajava mais na política e era mais atuante era o de cunho neopentecostal. Porém, recentemente, no Brasil, os evangélicos de perfil histórico/reformado também se juntaram a essa frente, sob um argumento chamado de “Cosmovisão Cristã”, segundo o qual, tudo na vida deve refletir a crença cristã. Isso estaria associado a ter uma visão política de direita e conservadora, a despeito de esquerda e direita serem conceitos muito posteriores aos escritos bíblicos. Além disso, é comum que se perceba nesses grupos mentalidade anticientífica, contra a globalização e contra a corrente principal da mídia.

Como podemos perceber, o perfil e o comportamento evangélico na política e na sociedade é bastante multifacetado e mosaico. No Brasil, evangélicos cada vez mais apresentam um perfil “nominal” e não praticante, semelhante aos católicos. Esse dado confronta a tese de radicalização dos conflitos religiosos com o crescimento evangélico no Brasil.  É importante que as análises sobre esse setor da população sejam sempre historicamente embasadas e cuidadosas, para que possamos entender melhor e sem preconceitos essa relevante esfera da sociedade.

 

 

  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •