Charlottesville e a relativização e ressignificação de figuras e símbolos históricos

Entenda como às vezes valorizamos figuras históricas controversas

 

Por Jorge Oliveira Gomes

 

Há poucas semanas atrás o mundo presenciou, em choque, uma marcha de neonazistas nos Estados Unidos, na cidade de Charlottesville. Muitas prefeituras norte-americanas estavam derrubando estátuas e monumentos públicos ligados a personagens históricos dos Confederados – tropas rebeldes do Sul dos EUA que geraram uma Guerra Civil contra a União ao irem contra o fim da escravidão, proposto por Lincoln, do Partido Republicano (na época, um campeão das causas progressistas). Os separatistas perderam, porém, a bandeira confederada permanece hasteada em muitas casas no Sul dos EUA.

Muitos racistas se utilizam dos brasões e flâmulas confederados. Todavia, uma parcela significativa de americanos brancos que não congregam com essa ideologia sentem que sua tradição está apagada da história e relativizam outras figuras. O argumento é o seguinte: por que derrubar uma estátua de um general confederado mas não lembrar que há personagens históricos famosos que também tiveram escravos?”. O próprio presidente americano, Trump, se utilizou desse argumento. Ora, se é assim, porque não derrubar o monumento do Monte Rushmore, com a face de 4 ex-presidentes americanos que tiveram escravos? Se a história é escrita pelos vencedores, então não existe um lado moralmente superior, dirão alguns.

 

Estátua do general confederado Robert Lee, que causou a confusão em Charlottesville.

 

Esse tipo de debate envolvendo a ressignificação e relativização de personagens e símbolos históricos idealizados é comum e ubíqua. Se figuras quase unânimes como Mandela, Madre Tereza de Calcutá, Martin Luther King (saiba mais aqui), Ghandi e até mesmo Jesus são alvos de teorias e denúncias, imagine personagens históricos menos elevados?

A realidade brasileira pode parecer distante desse debate, mas não é. Aqui, tanto a esquerda quanto a direita acabam homenageando legados controversos. Exemplos abundam: é trivial que figuras ligadas umbilicalmente à ditadura militar ganhem nome de praça, escola ou rua no Brasil. Duque de Caxias, da Guerra do Paraguai, foi um dos maiores genocidas sul-americanos, todavia, é celebrado como herói pelo Exército brasileiro e deu nome até a município. Militares verdadeiramente heroicos como Marechal Cândido Rondon, contudo, tem menos reconhecimento e fama. O Brasil viveu uma ditadura sanguinária e inclemente com Getúlio Vargas durante o Estado Novo. Porém, ele dá nome a faculdades de ponta e é lembrado com carinho por parte da esquerda.

Devemos proibir, portanto, monumentos e homenagens ligados a figuras controversas? A resposta é: depende. Muitas figuras são lembradas, simbolicamente, mais pelos seus feitos positivos do que negativos e acabam representando outras coisas. A cultura pop é uma das grandes culpadas disso.  É o caso de Lampião (saiba mais aqui), cujo bando se envolveu em estupros e roubos, mas que ganhou uma áurea popular de Robin Wood e tem sua imagem associada a cultura nordestina. Para o bem ou para o mal, soa exagerado fazer confusão com um restaurante de comida típica nordestina que ostenta uma alegre réplica de Lampião e Maria Bonita.

 

Duque de Caxias é uma figura controversa da história brasileira lembrada em vários prédios e espaços públicos

 

Falando em cultura pop, Andy Warhol eternizou a imagem de personagens como Mao Tse Tung e Che Guevara em figuras idealizadas e inofensivas, porém, qualquer um que conheça bem a história sabe o que os dois representaram. Usar uma camisa com a imagem dos dois soa mais estranho e politicamente incorreto do que usar uma camisa com a imagem de Lampião, mas ainda assim não equivale a usar uma camisa com o rosto de Stalin.

Essa não é uma questão fácil. Há algumas saídas analíticas, porém. A primeira é que o poder público deveria se abster de homenagear figuras dúbias. Ditadores e genocidas deveriam estar fora da lista. A segunda: os indivíduos devem ter o direito de expressar livremente suas preferências, ainda que ofensivas, desde que não incentivem diretamente crimes. Caso contrário, há espaço para arbitrariedades estatais. A terceira e, de longe, a mais importante saída: bom senso e pesquisa.

É importante estar atento a narrativas polêmicas ou subversivas demais. Parcela não trivial da “nova direita” nacional tenta pintar Zumbi como um senhor de escravos, já que nos Quilombos ocorria escravidão, mas se esquece de que escravidão, ainda que reprovável como prática, é distinta do regime escravista mercantil que dizimou e reificou milhares de seres humanos com base na cor da pele. Há um debate interminável sobre se é possível igualar a suástica nazista e a foice e o martelo comunista. Mais uma vez, o bom senso reina: a despeito das atrocidades cometidas por diversos regimes comunistas, o símbolo das foice e do martelo está presente em bandeiras de diversos países e não se associa à segregação racial. A questão central é que é muito importante estar atento a mensagem que se quer passar quando lembramos algo do passado e que, na vida real, homens não são anjos.

  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •