Ecossistemas Empreendedores

A alternativa que surge como agente transformador do mundo dos negócios

 

Por José Carlos Branco

 

O desenvolvimento local envolve a existência de territórios dinâmicos e de parceiros que contribuam para melhoria das condições de vida, do ambiente de negócios, criação de empregos e a competitividade. Paralelamente, é imprescindível o aprendizado compartilhado entre os indivíduos para uma maior qualificação no mercado (Rosenthal e Strange, 2004; Duranton e Puga, 2004; Puga, 2010). Desta premissa, surge o termo “ecossistema empreendedor”, que segundo Suresh e Ramraj (2012) descreve as condições nas quais os indivíduos, as empresas e a sociedade se juntam para gerar desenvolvimento econômico e prosperidade.

Mason e Brown (2014) contribuem para este debate definindo o ecossistema empreendedor como um conjunto de atores empresariais interconectados (tanto os existentes como os potenciais), instituições (universidades, órgãos do setor público e organismos financeiros) e processos (taxa de nascimento de negócios, número de empreendedores de grande sucesso, e os níveis de ambição empresarial, além da mentalidade progressista da sociedade). Esta definição realça a importância das conexões formais e informais como mediadores de desempenho dentro do ambiente empresarial local.

 

Tabela do ecossistema empreendedor

 

Neste contexto, o exemplo mais famoso de ecossistema empreendedor é o do Vale do Silício, que é uma região onde existem empresas que iniciaram seus negócios e possuem sedes na localidade, são elas: Apple, Facebook, Google, NVidia, Electronic Arts, Ebay, HP, Intel e Microsoft, Adobe, Oracle e demais gigantes do universo da tecnologia. Mas o vale era um lugar muito diferente antes desses negócios se desenvolverem. Quando a indústria de microchips de computadores começou a emergir em meados dos anos 1950, não havia investidores para o setor. A Universidade de Stanford não realizava pesquisas sobre o tema e a oferta de trabalhadores locais qualificados para a alta tecnologia era praticamente inexistente. A região da baía de São Francisco estava muito atrás de cidades como Boston e Nova Iorque em relação à indústria do chip. Ninguém esperava que se tornasse um polo para empresas dessa tecnologia. Enquanto é impossível replicar exatamente os eventos que consagraram a região 50 anos atrás, o desenvolvimento do Vale do Silício pode promover conhecimento para empreendedores, líderes e gestores públicos em comunidades ao redor do mundo. Algumas delas são:

 

  1. Grandes companhias podem se desenvolver em ambientes desafiadores e improváveis.

  2. Alguns empreendedores são suficientes para causar um grande impacto.

  3. Há um modelo de sucesso que líderes e gestores públicos podem acelerar.

 

Hoje, o Vale do Silício cresceu, dominando toda a área da baía de São Francisco. E atrai aproximadamente 43% do financiamento de capital de risco americano, tornando-se lar de dezenas de “unicórnios”, que são empresas cujo valor de mercado é igual ou acima de US$ 1 bilhão.

No entanto, em todo o mundo, outros clusters de inovação surgiram rapidamente, e aqui no Brasil, mesmo sendo considerada uma zona “periférica” em relação ao empreendedorismo e tecnologia, surgiram iniciativas como o Porto Digital, que é um parque urbano instalado no centro histórico do Recife e no bairro de Santo Amaro, totalizando uma área de 149 hectares. Desde a fundação do Porto Digital, já foram mais de 50 mil metros quadrados de imóveis históricos restaurados em toda a extensão territorial do parque tecnológico.

O Porto Digital é fruto e referência nacional de uma ação coordenada entre governo, academia e empresas, conhecido como modelo “Triple Helix“. Essa iniciativa propiciou o ambiente necessário para fazer com que o Porto se transformasse num dos principais ambientes de inovação do País.  Atualmente, o Porto Digital abriga 267 empresas, organizações de fomento e órgãos governamentais e cerca de 8.500 trabalhadores. Desde o final de 2014, o parque também opera na cidade de Caruaru, localizada no Agreste do estado.

Mas e quando tratamos do ecossistema empreendedor de uma cidade do interior de Pernambuco? Pois bem, Garanhuns, apesar de ter algumas empresas de tradição – Ferreira Costa, Farmácias FTB, Vodka Nordoff, Pastello, por exemplo – com sede na cidade, ainda caminha a passos lentos para uma transformação em seu ecossistema. Porém, a cidade tem um potencial enorme de desenvolvimento, pela força do turismo, pelas instituições que fomentam o empreendedorismo, como o Sistema S e o ITEP, pelas universidades, além da preocupação da gestão atual em apoiar o desenvolvimento econômico da cidade. Mas para que esta transformação aconteça é necessário se atentar ao ciclo de aceleração do empreendedorismo:

 

 

Visando este potencial, e em atender a fase 1 do ciclo de aceleração do empreendedorismo (já que a cidade se encontra em uma fase embrionário enquanto ecossistema), sonhar alto, foi lançanda a “bee.it”, uma comunidade que pretende reunir pessoas com o propósito de transformar a sociedade através da inovação, tecnologia e criatividade formando um ecossistema empreendedor em Garanhuns. Com apoio do Governo Municipal, a iniciativa tem como objetivo fomentar um ambiente de oportunidades para empoderar estudantes, empreendedores e potenciais empreendedores a se desenvolverem de forma sustentável. Para viabilizar a comunidade, serão realizadas ações educacionais e encontros para gerar oportunidades de negócios, promover interação, troca de experiências, co-criação e discussões a respeito de temas em comum.

 

 

Bem, não se sabe se Garanhuns terá empresas unicórnios ou construirá um ecossistema auto-sustentável e escalável, mas o primeiro passo foi dado. As cenas do próximo capítulo, você acompanha aqui.

 

Link para o grupo do Facebook da Comunidade Bee.it

 

Referências:

 

Rosenthal, S.S.; Strange, W.C. (2003) Geography, industrial organization and agglomeration. The Review of Economics and Statistics, Vol. 85/2, pp. 377-393.

Suresh, J.; Ramraj, R. (2012) Entrepreneurial Ecosystem: case study on the influence of environmental factors on entrepreneurial success. European Journal of Business and Management 4(16), pp. 95-101.

Mason, C.; Brown, R. (2014) Entrepreneurial ecosystems and growth oriented entrepreneurship. Workshop organised by the OECD LEED Programme and the Dutch Ministry of Economic Affairs on Entrepreneurial Ecosystems and Growth Oriented Entrepreneurship The Hague, Netherlands, 7th November 2013, Final Version, January

2014.

https://rdstation-static.s3.amazonaws.com/cms%2Ffiles%2F6588%2F1425325397Como_o_Vale_do_Sil%C3%ADcio_se_tornou_o_Vale_do_Sil%C3%ADcio.pdf

http://www.infoescola.com/informatica/vale-do-silicio/

https://endeavor.org.br/o-que-empresas-podem-aprender-com-o-sucesso-vale-silicio/

http://www.portodigital.org/parque/historia

 

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  • Audálio Ramos Machado Filho

    Maravilhoso artigo parabéns José Carlos Branco Neto. Parabéns dblog. Conceitos modernos e necessários.

    • José Carlos Branco

      Muito obrigado, Audálio!