Filhos do Capibaribe: histórias que se confundem com a do rio

Conheça a história de duas pessoas que amam o Rio Capibaribe e lutam pela sua preservação

 

 

Por Rebecca Dantas

 

 

Seu Mário

 

 

Ele se identificou como Mario, assim, simples mesmo, só Mário. Mas o que eu vi é que ele nunca está só, talvez seja a companhia do Capibaribe, talvez a de dezenas de pessoas que passam pelo barco dele nas  travessias que custam R$1,00, o trecho.

Morador da Comunidade do Caiara em Recife , Seu Mário conta que sempre viveu do Rio, já “foi de tirar areia” pra vender, já foi pescador e viu “todas as qualidades de peixe de água doce”, e hoje vive levando as pessoas pra lá e pra cá.

De uma margem à outra, não só o Rio é profundo, mas também a desigualdade. De um lado arranha-céus, do outro, as palafitas, as calçadas versus a terra batida….,  mas nada disso pareceu tão profundo quanto a tristeza de Seu Mário ao falar da poluição que hoje afunda o Rio.

As águas que já correram pelas veias de Seu Mário, “Eu já bebi dessa água”,  hoje nada passam de lembranças de algo que ele nem reconhece mais. O pai de Seu Mário foi pescador, o avô, os irmãos, os filhos não tiveram mais como ser.

Escrevo para que Seu Mário, o só, num futuro esteja unicamente solitário em suas descrenças de que essa realidade não pode mais mudar – E um dia possa beber daquela água novamente.

Escrevo por Seu Mário, sobre o Capibaribe e pelo Capibaribe. Para que a morte da fauna, da flora e da cidadania não prevaleçam… 

 

Seu Mário e a equipe do Oxe, minha cidade é massa!

 

Mas o mais interessante, é como eu cheguei até Seu Mário. Ou melhor, chegamos, eu e o Oxe, minha cidade é massa!!!

Perdoem-me ser monotemática e falar tanto do projeto quanto falo de mim, mas assim pretendo ser pelos que ainda virão. A questão da cidade precisa ser recorrente. As ruas, os espaços públicos, as casas, os postes gritam pedindo a sua atenção. E essa tem sido a forma que descobri de lutar.

Foi buscando conhecer o que existe de bom na nossa cidade, foi buscando querer mostrar que hoje há pessoas lutando pelo espaço que os outros terão amanhã.

 

Dona Socorro

 

 

Ela se identificou como Dona Socorro e disse que o Rio chamava por ela. Há 20 anos fundou a ONG Recapibaribe e já tirou mais de 20 toneladas de lixo do rio. Um símbolo de resistência, amor e dedicação à cidade.

E com todo esse lixo, estes dias eu estava pensando…nós somos instigados diariamente a consumir.

Consumimos uns aos outros, colecionamos sapatos, likes e a ansiedade nos consome. Ultimamente eu tenho colecionado espaços públicos, e digo com orgulho que são 9 (NOVE) no meu trajeto diário (7 km) de casa para a faculdade. Agora eu saio perguntando por aí se as pessoas sabem quantos existem ao redor de suas casas, e sigo saltitante em minhas contagens quando eu perco (alguém tem mais espaços verdes do que eu) e esperançosa quando eu ganho. Eu adoraria se você quisesse competir comigo também e me mostrasse seus números .

Porque na verdade a luta é subversiva, é coletiva, e quem ganha é a cidade!

Quem dera fôssemos consumidos pela vontade de limpar o Capibaribe, de tornar a cidade acessível, cada dia mais criativa, em cobrar melhorias das gestões mas também fazer a nossa parte, quem dera tivéssemos o orgulho de morar na nossa rua e fazer picnic em nossos parques; quem dera a vontade de sair para passear aos domingos pelo bairro fosse a mesma vontade que temos de sair correndo mundo afora (e que se diga que temos coisas tão lindas ou mais que as deles).

A luta também permeia uma linha tênue ao que me consome e ao que me deixo consumir. Atenção, isso pode ser perigoso. Tenho me deixado consumir mais pela esperança do que pelo desespero, pelas pessoas positivas, criativas e resistentes. Pelos exemplos de cidades resilientes. Por Medellin, por Bogotá, mas também por Palmares, por Cumaru e por Cortês, que sofrem com as cheias em Pernambuco.  Capazes de se reinventar e correr, correr sem olhar para trás para o futuro brilhante, muitíssimo difícil de alcançar, mas ideal para todos.

Ideal! Ainda ontem conversava com uma mulher cheia de vontade de mudança, ela me dizia que a ‘’xingavam” de idealista por querer fazer algo a mais para a sua cidade porque sabia do potencial que tinha para fazer a diferença como cidadã. Silvia, meus amigos, é talvez a mais realista daquele lugar.

5 meses atrás, quando o Oxe começou, conheci Dona Socorro. Em um domingo de agosto, ela me apresentou Seu Mário e hoje eu os apresento para vocês.

A transformação já começou. Vamos em frente!

 

Galeria de Fotos

 

 

 

 

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