Getúlio

Do convencional ao agroecológico: a construção de uma propriedade sustentável.

 

Nome: José Getúlio Guimarães de Santos

Idade: 27 anos

Profissão: Trabalha na secretaria de desenvolvimento rural e meio ambiente de Garanhuns/PE.

Biografia: Técnico em agroecologia e técnico em agropecuária. Agricultor e experimentador. Opta por desenvolver a propriedade, localizada no Sítio Cruz, Garanhuns-PE, dentro dos princípios da agroecologia, utilizando as tecnologias alternativas do semiárido.

 

Tudo começou por volta de 2008. Nessa época, meu pai estava muito desanimado com a forma que praticávamos a agricultura em si, pois estávamos explorando muito os recursos naturais da propriedade, mas não tínhamos retorno financeiro. Então, quando eu tive a oportunidade de ingressar no primeiro curso técnico de agroecologia, uma ONG conhecida como SERTA (Serviços de Tecnologias Alternativas), eu pude conhecer um novo modo de trabalhar de forma diferente a agricultura convencional.

Posso lembrar que, eu ficava indo uma semana por mês para a instituição e trazia as informações do que aprendia para a minha família, na verdade, esse era um dos objetivos das aulas. Ao contrário dos meus colegas que tinham dificuldade de convencer os pais e a famílias deles a implantar novas ideias na propriedade, na qual o medo sempre traz a dúvida e a desconfiança, certamente eu fui privilegiado com o apoio da minha família, pois sem isso não seria possível mudarmos a nossa propriedade.

 

“Com o objetivo de tornar a propriedade sustentável,

optamos por trabalharmos nela baseando-se nas quatro

seguranças básicas da agroecologia…”

 

Começamos, então, a mudar toda a nossa terra, do convencional ao agroecológico. Percebemos, primeiramente, que a casa estava mal localizada na propriedade, dentro dos princípios físicos, e juntou com a vontade que já tínhamos de nos mudarmos. Logo, pensamos em construir a casa em um local estratégico, onde a partir da casa, que é o centro de todas as atividades da propriedade, poderia se desenvolver os afazeres ao redor dela.

Com o objetivo de tornar a propriedade sustentável, optamos por trabalharmos nela baseando-se nas quatro seguranças básicas da agroecologia: a segurança alimentar, hídrica, energética e de nutrientes. São essas quatro especificidades que a as propriedades deveriam/devem ter. O propósito da primeira segurança é garantir o alimento da família. Já que moramos na zona rural, somos agricultores, temos a terra e água, então porque não produzir o nosso próprio alimento? Passamos, portanto, em pensar na nossa saúde e a produzir alimentos livres de agrotóxicos, tal qual é conhecido pelas pessoas como veneno. Trabalhamos uma pequena área de hortaliças e ela produz hoje de dez a doze tipos o ano inteiro. Nós produzimos, também, na área frutífera, dezessete tipos diferentes e cada um na sua época deixa alguma coisa para a nossa família. Já na parte animal, lidamos desde com galinhas até o gado.

A segunda segurança é a hídrica. Nós tínhamos/temos a disposição à barreira de Trincheiras que capta água do córrego, onde é bombeada essa água por uma bomba até a parte mais alta do terreno e depois ela desce para a propriedade por gravidade. Isso certamente barateia o custo da energia elétrica. Também temos cisternas de dezesseis mil litros que capta a água do telhado, passa por todo um tratamento e é utilizada para consumo da nossa residência. Além do mais, temos a cisterna “calçadão”, de cinquenta e dois mil litros, que é voltada para o auxílio da produção dos alimentos, ela capta água da chuva através de um “calçadão” de área de 10m de largura por 20m de comprimento, onde a água escorre e é utilizada conjuntamente. Inclusive, temos o lago artificial com a criação de peixes voltada para consumo.

Não menos importante, a segurança de nutrientes com certeza é de extrema importância. Nós os obtemos através dos alimentos, como também, utilizamos estes para aprimorar o solo, pois o nosso é fraco e pobre. O fato desse terreno está na mão da família do meu bisavô, desde 1958, e sendo trabalhado desde então, comprometeu a sua qualidade. Portanto, temos que trabalhar a fertilidade dele através da adubação orgânica. Uma parte do esterco do gado é destinada ao biodigestor que produz gás e outra parte é destinada ao solo, então fazemos o plantio do feijão e do milho. Do milho fazemos a silagem, na qual passa a ser um material orgânico e é assim armazenado e dado nos períodos de seca aos animais. Em seguida, o gado produz mais esterco, novamente, tornando-se um ciclo.

 

“No momento em que não der para escrevermos mais uma nova página,

escreveremos pelo menos uma linha, ou pelo menos, uma letra.”

 

A segurança energética é proporcionada muitas vezes pela natureza e a sociedade não aproveita. Temos, como exemplo, um cata vento que gira através da força mecânica e bombeia água de um lago, colocando-a e retirando-a para circular e oxigenar a água onde os peixes ficam. Temos também um  fogão solar para cozinhar, não queimamos lenha nem gastamos gás, custo zero. Várias lâmpadas solares também fazem a iluminação da propriedade. Portanto, são basicamente essas quatro seguranças que tornam o nosso lugar sustentável.

Por conta disso, a propriedade é muito visitada por diversas instituições que vão desde alunos de escolas, faculdades, cursos técnicos, até grupos de agricultores de outras regiões. Ano passado foram mais de 500 visitas e a cada ano esse número só vem crescendo. Hoje, muitos dos que nos vistam saem entusiasmados e motivados a mudar a suas propriedades. Eu tive alguns encontros após com os visitantes e muitos me disseram: “aquela sua explicação me fez mudar de ideia, agora aplico parte do seu conhecimento na minha propriedade”, certamente isso é muito gratificante e com certeza não pretendemos parar. A propriedade está sempre em evolução. Na verdade, ela é como um livro sendo escrito a cada dia. Contidamente mais uma nova página é escrita. No momento em que não der para escrevermos mais uma nova página, escreveremos pelo menos uma linha, ou pelo menos, uma letra.

 

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