A Hecatombe de Garanhuns

Conheça mais sobre a maior tragédia política do interior de Pernambuco

 

Por Professor José Cláudio Gonçalves

 

Com o advento da República, nasce em Garanhuns uma nova ala política liderada pelo coronel Antônio da Silva Souto e o juiz de direito, Luiz Afonso de Oliveira Jardim, sendo o primeiro eleito prefeito (saiba mais sobre os primeiros prefeitos de Garanhuns aqui) de Garanhuns em 1892. No final do governo de Antônio da Silva Souto em 1895, a ala política dominante passou ao comando do Dr. Luiz Afonso de Oliveira Jardim, tendo como principal aliado político, o pernambucano e vice-presidente da República Francisco de Assis Rosa e Silva.

Pela força política que o juiz de direito exerceu sobre a região do Agreste Meridional esse período ficou conhecido por Jardinismo e foi marcado pela sucessão de prefeitos desse grupo político em Garanhuns, entre eles o seu irmão Manoel Antônio de Azevedo Jardim e os cunhados Francisco Veloso da Silveira e Argemiro Tavares de Miranda, que renunciou em 1912, um ano após o general Dantas Barreto assumir o governo do Estado e consolidar a ascensão de Júlio Brasileiro, seu principal aliado em Garanhuns. Coronel Júlio Brasileiro com esse apoio é eleito prefeito em 1913 e 1915 deputado estadual.

Em julho de 1916 acontece a eleição municipal em Garanhuns. Os Jardins que estavam afastados da política decidem apoiar na disputa local para prefeito o Dr. José da Rocha Carvalho e para subprefeito o Dr. Antônio Borba Junior. O coronel Júlio Brasileiro, então deputado estadual, temendo uma derrota, resolve lançar a sua candidatura, tendo como companheiro de chapa e candidato a subprefeito o capitão Thomaz da Silva Maia.

 

Capa do livro do Professor Cláudio sobre o tema

 

Durante a campanha, o capitão Francisco Sales Vila Nova, oposicionista, denuncia através de notas pagas nos jornais da Capital os excessos de violência cometidos pelos familiares e correligionários de Júlio Brasileiro, revelando que cruzes negras seriam colocadas nas casas dos adversários políticos e que uma lista negra estava sendo preparada com os nomes dos oposicionistas que após a vitória de Júlio Brasileiro seriam surrados a cipó-de-boi numa sessão de três carrascos para cada um. Apesar da vitória de Júlio Brasileiro a eleição é anulada, e um novo pleito marcado para 7 de janeiro de 1917. Desta vez, a oposição não participou da disputa, por não concordar com a decisão do Governador Manoel Borba, aliado de Júlio Brasileiro.

Passados alguns dias da eleição, no dia 12 de janeiro, uma sexta-feira, após o encerramento da última sessão do Cine Grossi onde o capitão Sales Vila Nova era operador, por volta das 22 horas quanto retornava para casa na Rua da Independência (atual Rua Cabo Cobrinha), foi alvo de uma emboscada, sendo surrado impiedosamente por seis homens mascarados a bengaladas e cipó-de-boi, sendo socorrido por seus familiares.  No dia seguinte, percorreu a feira mostrando aos amigos as equimoses provocadas pela surra, e responsabilizando o coronel Júlio Brasileiro, que se encontrava em Recife, o subdelegado Eutíquio Brasileiro, seus sobrinhos e o secretário da prefeitura Fausto Galo pela emboscada.

 

Local onde era a Delegacia de Garanhuns na data da tragédia 

 

Na manhã do domingo, dia 14 de janeiro, embarcou para o Recife, tinha a pretensão de denunciar o mandante e os cúmplices ao Dr. Antônio Guimarães, Chefe de Polícia. Chegando ao Recife, às 20:30, e após procurar Júlio Brasileiro no Hotel Universo, o encontrou no terraço do Café Chile, onde disparou quatro vezes contra o prefeito eleito de Garanhuns, que veio a tombar na calçada do Hotel Luzitano após perseguir seu agressor. Capitão Sales Vila Nova foi preso no saguão do hotel e levado para o quartel do 1º Batalhão.

No dia 15 de janeiro a família Brasileiro recebeu os telegramas enviados pelo deputado Eutrópio Silva comunicando o assassinato do coronel Júlio Brasileiro. A notícia não demorou a se espalhar pela cidade, formando um aglomerado de parentes, amigos e correligionários na casa da viúva Ana Duperron Brasileiro. Protestando o assassinato do coronel Júlio Brasileiro, seu irmão Eutíquio Brasileiro, os sobrinhos Antônio Rosa Filho, José Viana, Álvaro Viana, o secretário da prefeitura, Fausto Galo, e o juiz José Pedro de Abreu e Lima, acreditavam que o capitão Sales Vila Nova teria sido apenas um instrumento dos adversários do chefe da família, e tudo não passou de um complô para tomarem a chefia política de Garanhuns.

A viúva Ana Duperron, apoiada pelo juiz de direito Abreu e Lima, em determinado momento em que recebia os pêsames dos que estavam em sua residência soltou a seguinte frase: “só derramarei uma lágrima quando as outras chorarem, e só vestirei luto depois das outras vestirem”.

Os parentes e correligionários trataram de arregimentar homens de confiança e jagunços de suas fazendas em Brejão em pouco tempo, Garanhuns estava tomada por aproximadamente cem homens armados que passaram a invadir as casas e lojas comerciais dos principais adversários políticos de Júlio Brasileiro. Diante da iminente situação de vingança, o delegado Meira Lima convenceu as principais lideranças da ala Jardim a se recolherem a cadeia, único local que estariam em segurança, pois ali só entrariam depois de passarem sobre o seu cadáver.

 

Delegacia de Garanhuns em 1917, local onde ocorreu o massacre

 

Debalde foram os esforços do Cônego Benigno Lira, do Conselheiro Francisco de Assis Barbosa e do Promotor João Pacífico dos Santos em convencer a família a desistir dos propósitos de vingança. Às 15:30 a cadeia é cercada pela fachada, laterais e fundos. O Cabo Cobrinha ainda entra em confronto com o jagunço Vicentão, mas é atingido mortalmente e fere gravemente o sicário. O cerrado tiroteio durou aproximadamente 30 minutos. Vencida a guarda formada por quatro soldados e o Sargento Pedro Malta, que consegue escapar, os jagunços invadem a cadeia, matando cruelmente Manoel Jardim, Francisco Veloso, Sátiro Ivo, Dr. Borba Júnior, Júlio Miranda, Gonzaga Jardim e Argemiro Miranda a porta cadeia em combate com os facínoras.

O filho de Argemiro Miranda, Theotonio de apenas 10 anos, foi encontrado nos corredores da cadeia, mas Antônio Rosa, sobrinho de Júlio Brasileiro, impediu que seus comparsas o matassem. Cônego Benigno Lira ao escutar o som dos tiros vindos da cadeia, correu em direção a casa da viúva, encontrando na calçada o Juiz Abreu e Lima e o delegado Meira Lima, que havia deixado a cadeia momentos antes do ataque, chamando-os para acompanhá-los a cadeia, os mesmos responderam que o padre não fizesse aquela loucura.

 

Algumas das vítimas da Hecatombe

 

Cônego Lira prosseguiu com a imagem do Crucificado ao peito, próximo a cadeia se deparou com Eutíquio Brasileiro e Doca Viana, com as mãos na cabeça exclamou: “Para que fizeram uma miséria desta”? Toma a palavra Eutíquio e lhe responde: “Padre, vá para casa e saiba que bala também fura couro de padre”. Cônego Benigno Lira cabisbaixo seguiu para a cadeia onde deu a extrema unção aos mortos.

Pouco tempo depois chegou o trem com o reforço policial trazendo vinte e dois soldados sob o comando do tenente Theophanes Torres, mas nada mais podiam fazer. Só puderam evitar que as casas comerciais dos adversários de Júlio Brasileiro fossem incendiadas. Dias depois prendeu vários envolvidos na chacina.

Na casa da viúva, vários jagunços se reuniram com o Juiz e o delegado. Parentes de Júlio Brasileiro beberam e dançaram um macabro sapateado. De oitenta e dois indiciados, apenas doze envolvidos foram condenados pelo Tribunal de Justiça de Pernambuco, enquanto os autores intelectuais da chacina foram não foram processados pela Justiça.

 

Informações sobre o autor

 

José Cláudio Gonçalves de Lima nasceu em Garanhuns-PE no dia 06 de agosto de 1971. Tem licenciatura e especialização em História pela UPE. Professor da Rede Estadual e Municipal de Ensino. É sócio-fundador e primeiro presidente (2013 a 2015) do Instituto Histórico, Geográfico e Cultural de Garanhuns (IHGG), membro da Academia de Letras de Garanhuns e coordenador do Arquivo Público Municipal. Suas primeiras publicações foram: Os Sitiados: a Hecatombe de Garanhuns (2009) e República (2012).

 

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