Ideologia: do que se trata realmente?

Entenda mais sobre este difícil conceito que sempre está presente nas discussões políticas

 

 

Por Gabriel Barreto

 

 

No momento de polarização que se vive no Brasil, muito se fala em ideologia. É comum a negação dela, associando-a ao atraso e disputas que travam o país. Ninguém quer ter a pecha de parecer ideológico. Porém, do que se trata realmente? Como afeta a vida das pessoas? O conceito é nebuloso e há muitos significados atribuídos a ele. Neste artigo me dedico a tarefa de deixar mais clara essa questão que é ao mesmo tempo complexa e importante.

O primeiro passo é tentar consolidar um significado para a palavra. Dentro das próprias Ciências Sociais há muita divergência sobre o que significa ideologia, mas ainda é possível extrair definições básicas. Ideologia política, numa perspectiva simples, é um conjunto de crenças compartilhadas sobre como é a sociedade, como ela deveria ser e quais os caminhos para realizar essa mudança. É o mapa mental que nos ajuda a interpretar como a realidade é estruturada. Funciona como uma lente analítica que usamos para entender o ambiente ao nosso redor e estruturar nossas preferências.

 

Como a ideologia está presente na vida das pessoas?

 

Há, também, o debate sobre as dimensões da ideologia, onde a divisão mais tradicional é entre direita e esquerda. Opiniões ideológicas são pensadas nesses termos desde a Revolução Francesa. De maneira geral, esses dois lados se diferenciam em um aspecto: um deles é mais permeável à mudança e o outro ao combate, preferindo a tradição. A esquerda está mais associada com preferências por mudança, enquanto a direita tende ao conservadorismo e manutenção do status quo.

Ainda na seara sobre dimensões ideológicas, há o debate sobre como pessoas podem ter opiniões de esquerda em aspectos sociais e de direita em aspectos econômicos, por exemplo. O que a pesquisa científica na área mostra é que, geralmente, isso é raro. Opiniões conservadoras no plano econômico estão intimamente relacionadas ao conservadorismo no âmbito do comportamento e vice-versa. O que é curioso é que isso é ainda mais forte entre pessoas mais sofisticadas intelectualmente. Quanto mais educado um indivíduo é, mais coerente são suas preferências ideológicas.

 

Imagem contendo as ideologias políticas mais conhecidas de acordo com as preferências dos indivíduos

 

Porém, entre pessoas menos educadas e/ou atentas às questões políticas,  pode existir a distinção entre o plano simbólico e operacional da ideologia. O lado simbólico se refere a como a pessoa se identifica e a que grupo ela pertence – alguém pode se dizer a favor de “políticas sociais”, por exemplo. O lado operacional, por sua vez, diz respeito às opiniões sobre questões práticas ou materiais. É possível que alguém se diga a favor de justiça social mas se oponha a políticas de cotas. Nesse caso, no plano simbólico, a pessoa se identifica com a esquerda e no operacional, com a direita.

Ideologia é um conjunto de preferências e perspectivas sobre como funciona a realidade e como ela deveria ser. Credita-se seu surgimento a duas fontes principais: elites e motivos psicológicos. As elites – lideranças políticas e da mídia – simplificam a realidade transformando-a numa mensagem cuja função é direcionar a população a acreditar no que eles querem. A interação entre as elites, suas mensagens e o público dá origem ao que se chama de superestrutura discursiva.

 

“Ideologia é um conjunto de preferências e perspectivas sobre como funciona a realidade e como ela deveria ser”.

 

A outra origem da ideologia tem natureza psicológica. Uma das razões para isso é que ideologia simplifica a realidade, tornando-a mais fácil de ser compreendida e introduzindo um componente de previsibilidade. É uma tendência natural humana preferir coisas simples e previsíveis. Outros motivos incluem a necessidade de pertencimento a um grupo, a socialização na idade pré-adulta e predisposições ao autoritarismo. Essas origens psicológicas formam o que se chama de subestrutura motivacional. Ela, em conjunto com a superestrutura discursiva formam o “cardápio ideológico” disponível e explicam a escolha dos indivíduos por determinadas opiniões.

Aqui apresentamos uma definição simples de ideologia, colocamos suas duas principais dimensões e mostramos, de forma muito rudimentar, como ela surge. Como o tema é de muita complexidade, o conteúdo foi bastante resumido. Mas, talvez o ponto mais importante do texto seja mostrar como ideologia é algo de que não se pode preterir. Se um indivíduo tem preferências no âmbito da política sobre como a sociedade deveria ser, há um componente ideológico agindo. O caminho para o avanço na política não passa por ignorar esse elemento fundamental na estruturação de nossas crenças e atitudes.

Se você ficou curioso sobre qual é a sua ideologia, disponibilizamos dois testes que podem lhe ajudar a descobrir:

The Political Compass (em português)

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Referências

 

Para mais sobre ideologia, suas origens e implicações, ver: Political Ideology: Its Structure, Functions and Elective Affinities – Annual Review of Political Psychology, 60, p. 307 – 337

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