Marxismo Cultural: você já ouviu falar nisso?

Saiba mais sobre este termo que começou recentemente a habitar as discussões nas redes sociais brasileiras

 

 

Por Jorge Oliveira Gomes

 

 

Se você habita no Brasil de 2017, possui acesso à internet e mora em áreas urbanas provavelmente já se deparou com o termo “marxismo cultural”. Presidenciáveis eleitoralmente competitivos, pastores, youtubers famosos, articulistas e, provavelmente, algum familiar ou amigo seu usam esse termo costumeiramente em debates sobre política e explicações. Mas você sabe o que esse conceito significa e quais as críticas a essa teoria?

É muito difícil achar algo sólido sobre esse termo vindo de uma fonte confiável e qualificada, principalmente em língua portuguesa. Sobre o assunto, o mais comum são textos de blogs – bastante ricos em adjetivações – memes e vídeos no youtube. Em língua inglesa a situação melhora, porém não muito. Mas, afinal, o que significa marxismo cultural? Originalmente o termo foi criado para se referir (de maneira não pejorativa) aos membros e discípulos da chamada Escola de Frankfurt, composta por nomes como Adorno, Horkheimer e Habermas. Esse pequeno grupo de autores (majoritariamente judeus e ateus) fugiu da Alemanha nazista para os EUA, onde se tornaram professores em Universidades americanas de ponta, como Columbia.  Esse ramo filosófico, conhecido como Teoria Crítica, é muito intrincado e é considerado difícil e rebuscado até mesmo por estudantes de ciências sociais acostumados a ler textos difíceis.

 

Principais nomes da Escola de Frankfurt. Fonte: politicaedireito.org

 

A narrativa do Marxismo Cultural popularesca ensina, contudo, que as ideias desses pensadores, juntamente com a psicologia de Freud e a noção de politicamente correto, feminismo, “globalismo” e progressismo dominaram o mainstream midiático, o campo das artes e das universidades. Hollywood, a mídia, a educação, tudo estaria “dominado” por essa espécie de “cosmovisão” que, ao fim e ao cabo, almeja destruir a cultura ocidental, o cristianismo e a noção de “família nuclear burguesa”. Com o tempo, o termo “marxismo cultural” foi se tornando uma denominação “guarda-chuva” usada por ultra-conservadores para se referirem a qualquer pauta pós-material progressista, como aborto, direitos LGBT ou até mesmo Estado Laico.

A semente de tudo isso teria sido plantada por um autor italiano chamado Gramsci, que (realmente) frisava que o marxismo clássico e as experiências socialistas falharam num ponto crucial: não atentar em construir bases na população proletária, através do convencimento, da educação e da cultura. Assim, o marxismo deveria antes de tudo construir uma hegemonia cultural para somente então ir para as transformações sociais, políticas e econômicas mais amplas e radicais por assim dizer.

 

gramsci

Antonio Gramsci, teórico italiano

 

Com a queda do Muro de Berlim, em 1989, o avanço da democracia liberal e a óbvia derrocada do comunismo soviético, gerou-se um consenso de que as contribuições essenciais do marxismo estavam mais na seara da crítica ao capitalismo agressivo do século XIX e na reconstrução histórica da exploração dos trabalhadores do que na proposta de um novo modelo econômico centralizado e radicalmente redistributivo. É nesse momento que as teses sobre o marxismo cultural ganham força, afirmando que, na verdade, o marxismo estaria bem vivo e avançaria pelo terreno da cultura, sem se auto-denominar marxismo e, estranhamente, aceitando o capitalismo de bom grado.

Essa teoria possui uma série de problemas. O principal deles é que em nenhum momento Marx ou Gramsci falam sobre feminismo, cosmopolitismo e pautas identitárias ou pós-materiais. Essas são questões pós-modernas, muito recentes. Marx, que teve um filho bastardo com sua empregada doméstica, seria facilmente xingado de “esquerdomacho” pelas feministas atuais. Uma das principais críticas ao marxismo clássico foi justamente o foco excessivo na economia.

 

Karl Marx

 

Além disso, os valores mudam na sociedade de maneira descentralizada. É certo que a mídia influi a população, mas não deixa de ser verdade que ela também é um reflexo dessa mesma população. Assim, é difícil pensar que existe uma conspiração ampla dos meios de comunicação e das elites. Além disso, se a noção de família mudou, é importante ressaltar que ela tem mudado desde sua concepção. Havia outros modelos familiares antes da família nuclear burguesa, pois família é um conceito que se transforma com o tempo. No campo dos valores, o mais perto da concepção tradicional, conservadora e religiosa que podemos encontrar é vista nos países islâmicos, que não passaram pelo processo Iluminista, e não nas democracias ocidentais de tradição protestante.

É importante lembrar: o politicamente correto surge como força precisamente no Ocidente com o trauma da Segunda Guerra mundial e a criação da ONU. Podemos afirmar sem medo de errar que o politicamente correto é uma criação Ocidental e não necessariamente é uma pauta de esquerda, mas uma visão de mundo preponderante nas democracias liberais, a despeito de fortes reações contrárias.

 

politicamente

O politicamente correto é uma criação Ocidental e não necessariamente é uma pauta de esquerda

 

Existem algumas estratégias para perceber a validade de uma teoria. A primeira delas é se a teoria é falseável, ou seja, se a teoria é passível de ser negada através de provas. Nem o marxismo clássico, nem tampouco o marxismo cultural, possuem essa porosidade à crítica e ao contraditório. São teorias escatológicas que abraçam a realidade social como um todo e acabam se tornando dogmáticas.

Um ponto interessante: não há legitimidade dessa teoria na academia. Nenhum cientista social sério abraça essa tese. O mundo está sendo dominado, youtubers sabem, mas não doutores e especialistas das mais prestigiadas instituições. Um malabarismo retórico comum é retrucar: “ora não se fala nisso porque a Universidade é toda de esquerda e já está dominada pelo marxismo”. O argumento é tautológico, cíclico: impossível de se negar.

Teorias devem possuir conexão com o mundo empírico e não podem ser meras conjecturas. O marxismo cultural, além de apócrifo (não possuir um autor certo) e tautológico, apela para uma noção alarmista e esquizóide de que há uma conspiração em jogo. Isso não é novidade na história da humanidade. Um manuscrito comum no Pré-Segunda Guerra, chamado “Protocolo dos Sábios de Sião” imputava aos judeus a culpa por uma série de problemas que ocorriam à época e falava dos planos secretos desse povo para a “dominação mundial”.

 

O marxismo cultural é um tema extremamente polêmico e mal compreendido  por muitos de seus críticos e apoiadores

 

É interessante lembrar que o terrorista norueguês Anders Breivik justificou ter assassinado a tiros vários adolescentes se utilizando precisamente do conceito de marxismo cultural. Era uma teoria que se encaixava bem nas suas preferências contra imigrantes, feminismo e globalização. É alarmante que essa teoria esteja se tornando cada vez mais mainstream. É absolutamente possível criticar alguns consensos, unanimidades ou paradigmas atuais sem recorrer a narrativas fantasiosas, exageradas e totalizantes. O dissenso é fundamental para o funcionamento adequado da democracia, mas as críticas devem estar sempre amparadas nos dados da realidade e não em propagandas ideológicas apelativas.

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