Mobilidade e Cidade

Entenda mais sobre a mobilidade e algumas soluções para o deslocamento nas cidades

 

Por Bruna Matos

 

O atual discurso sobre mobilidade urbana se evidencia em Garanhuns no mês de julho. Mais precisamente na época do Festival de Inverno, evento que atrai muitos turistas para cidade. Para boa parte dos moradores, que não estão acostumados com grandes engarrafamentos no trânsito, sair de casa utilizando o carro pode ser sinônimo de dor de cabeça. Mas, afinal, qual o meio de deslocamento que a nossa cidade encoraja?

É sabido que as ruas vieram antes dos carros. Nas cidades coloniais a implantação das casas sob o limite do lote, baseadas em tradições urbanísticas portuguesas, conformavam as vias que facilitavam as locomoções dos carros de mão, carroças e das pessoas. Após a invenção dos automóveis a maneira de “fazer cidade” mudou, houve a priorização dos veículos em detrimento aos espaços destinados aos pedestres, e os carros passaram de solução a problema.

O modelo contemporâneo de cidade continua evidenciando, cada vez mais, a dependência do uso dos transportes motorizados. Isso porque há, devido à valorização imobiliária e fundiária, a produção de moradias nas zonas mais periféricas das cidades. Esse modelo, além de segregar e excluir os consumidores desses produtos (geralmente os mais pobres) do espaço real de cidade, dificulta o deslocamento até as “zonas” de trabalho, de lazer e de serviços.

A mobilidade não está apenas relacionada à construção/manutenção de vias, está relacionada, também, com a produção de cidade. É necessário, portanto, que haja planejamento da forma urbana, que associada à medidas estratégicas facilitem a locomoção de pedestres e veículos por toda cidade, como por exemplo:

  • Repensar o desenho das ruas e calçadas

É necessário sair da comodidade. Apesar da legislação municipal permitir, calçadas de 1,5m nunca foram confortáveis! Essa escolha favorece a marginalização dos pedestres, que é, se tratando de mobilidade, o elo mais frágil. É preciso desenhos de vias que considerem a existência das bicicletas como meio de transporte e favoreçam o pedestre, possibilitando maior segurança viária.

  • Infraestrutura

É fundamental existir vias adequadas para o tráfego e que priorizem, sempre, os transportes coletivos. Em cidades maiores são comuns alternativas como o BRT (Bus Rapid Transit) e o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), além dos metrôs que são conhecidos por maioria.

Essas alternativas ainda não são realidades em Garanhuns, mas infraestruturas complementares como simples bicicletários deveriam compor o mobiliário urbano da cidade. É preciso considerar a real possibilidade da intermodalidade e incentivar trajetos ativos até os pontos de ônibus.

  • Cidades mais densas e compactas

É notável que quanto mais espraiadas são as cidades, mais surgem problemas relacionados aos transportes públicos. Cidades mais densas e compactas permitem que uma quantidade maior de pessoas possa utilizar de uma mesma infraestrutura. Isso além de otimizar os custos de implantação e manutenção das linhas, reduz o deslocamento nos trajetos feitos diariamente.

Em Garanhuns, a AMSTT (Autarquia Municipal de Segurança, Transporte e Trânsito) é responsável por coordenar a formulação e a execução da política municipal de trânsito e transporte. No entanto, não há, na estrutura organizacional da autarquia, cargo voltado para arquiteto/urbanista.

A cidade é viva e dinâmica. Muda o tempo todo. Mas, é necessário pensar e “fazer” a cidade de forma mais inclusiva, viva e saudável. O problema da mobilidade urbana não está só relacionado com a infraestrutura (ou falta dela). Mobilidade urbana não é só transporte, é também desenho urbano.

 

Referências

 

GEHL, Jan. Cidades Para Pessoas. 2ª ed. São Paulo: Perspectiva 2013 [2010]

 “A rua não é um render”. In: Portal ArchDaily, publicado em 24.05.2017. Disponível em http://www.archdaily.com.br/br/871908/a-rua-nao-e-um-render

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  • Audálio Ramos Machado Filho

    Muito bom. Concordo plenamente, precisamos de um pensamento diferente para o planejamento urbano.