Populismo, fascismo e comunismo: gritar e acusar, é só começar

 Conheça melhor esses três conceitos tão presentes nas discussões das redes sociais

 

Por Jorge Oliveira Gomes

 

Nas ciências humanas, os conceitos costumam ter mais de um significado. A primeira coisa que se escuta quando algum pesquisador fala em alguma categoria, como, digamos, “democracia” é: “Qual a sua definição de democracia? A qual perspectiva você se filia?”. No geral, as teorias mais aceitas possuem as seguintes características: são fáceis de serem operacionalizadas, são passíveis de generalização, podem ser refutadas por outra teoria e são baseadas em observações empíricas. As nomenclaturas devem, por sua vez, serem precisas e objetivas.

Alguns termos, de tão elásticos, acabam perdendo sua precisão analítica e ganham qualquer significado: “golpe”, “democracia”, “burguesia”, “povo”, a lista é grande. São termos coringas e que soam bacana em discussões. No ruidoso debate político nacional, talvez os xingamentos mais escutados sejam: “fascista”, “comunista” e “populista”. Contudo, será que a maioria das pessoas saberia definir com algum grau de precisão cada um desses conceitos complexos?

Pegue, por exemplo, o termo “comunista”. Em tese, “comunista” seria uma pessoa que congrega com os ideais do comunismo, doutrina que tem Marx como nome central, a qual enxergava a sociedade como resultante do conflito entre capital e força de trabalho. O comunismo seria o estágio final da luta de classes, resultante da ditadura do proletariado, um horizonte utópico, onde não existiriam classes. Desnecessário lembrar que esse ideal nunca foi alcançado nas experiências reais, e fracassadas, de socialismo – o qual foi pensado por Marx para sociedades avançadas e industrializadas. O socialismo seria o caminho, a antessala, para o comunismo. Na prática, porém, muitas dessas ideias revolucionárias foram abandonadas com a socialdemocracia, que aceita diminuir as desigualdades sociais sem destruir o sistema capitalista. Essa saída gera o aumento significativo do tamanho do Estado, que entra em cena para fiscalizar, garantir o bem-estar e redistribuir.

 

Os termos “comunismo” e “comunista” muitas vezes são mal empregados. Acima, Karl Marx, o principal teórico dessa corrente ideológica e política

 

O comunismo, ao contrário do que se imagina no senso comum, despreza a tradição contratualista de valorização do Estado. O estado era visto como o comitê dos assuntos privados da burguesia para Marx. Assim, “ser de esquerda” (pessoa que preza por igualdade, mesmo que em detrimento da eficiência) é distinto de ser “comunista” – aquele que comunga da ideia de um mundo onde, através do socialismo, não haverá classes, desigualdades ou opressão sistêmica. Ainda: Marxismo analítico não é “comunismo”. Uma leitura da sociedade que se utiliza de uma ótica baseada no conflito estrutural entre capital e trabalho é marxista, mas nem por isso é “comunista”. Comunismo é ideologia. É possível separar o Marx ideólogo do Marx cientista social.

De cara, essa explicação rápida tira o rótulo pejorativo de “comunistas” de parte não trivial da esquerda democrática. Além disso, faz um corte analítico preciso que tira dessa grupo pessoas que muitas vezes pregam pautas “pós-materiais”, como gênero, raça e meio ambiente, questões que nunca interessaram a Marx ou aos marxistas clássicos.

E o fascismo? O fascismo é uma maneira de fazer política. Como o populismo, não deve ser definido por seus fins, que podem ser diversos e que variam de líderes para líderes, mas pelos seus meios. “Fascismo” vem de “feixe” ou, “molho”, “braçada”. O fascismo é um fenômeno de massa extremamente multifacetado, a ponto de abarcar líderes como Getúlio (saiba mais sobre ele aqui) e Mussolini. É precisamente na sua frouxidão ideológica que mora o perigo do fascismo, como já alertou Umberto Ecco. O fascista, no entanto, pode ser identificado através de algumas questões chave: unidade grupal, fechada e agressiva, lógica militar de ordem unida, igualdade de pensamento, retórica bélica, criação de inimigos externos e banalização da violência.

 

Benito Mussolini, líder do regime fascista que governo a Itália de 1922 a 1943

 

O populismo, por sua vez, é caracterizado pela manipulação das massas através de ferramentas como: plebiscitarismo, recusa ao pluralismo político e desprezo ao liberalismo. O líder populista é aquele que “joga para a torcida”, apela para a sabedoria popular e dialoga com o cidadão comum, sempre que possível, por cima das prerrogativas do cargo. O populista despreza as instituições. Líderes populistas entendem seu mandato representativo como um “cheque em branco” da população.  Eles recusam a representação republicana: se coloca como a voz do povo. Por esse motivo, costumam fazer uma confusão proposital entre majoritarismo e democracia. A democracia é a junção entre prerrogativas constitucionais e eleições livres e competitivas. Democracias desprovidas de contenções legais à regra da maioria descambam em democracias iliberais (sem as liberdades civis).

Dessa maneira, podemos concluir que frases-feitas e bordões muitas vezes servem como atalhos cognitivos, o que não é, de todo, algo inútil. Porém, eles também acabam desinformando e gerando preconceitos e falsas impressões. Assim, quando for utilizar conceitos históricos e complexos leve sempre em consideração a aplicabilidade e a adequação do termo.

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