Uberização em massa e a transformação da economia

Conheça mais sobre as empresas baseadas em plataformas e seu impacto no mundo contemporâneo

 

Por José Carlos Branco

 

O mundo vive um processo de constantes, profundas e rápidas transformações, muitas delas causadas pelas tecnologias de informação e comunicação.  Estas tecnologias estão modificando a forma como estudamos, trabalhamos, nos divertimos, e vivemos nosso cotidiano. No seio desse processo, muitos segmentos econômicos estão sendo transformados pela emergência de empresas que pouco têm a ver com aquelas que nos acostumamos a conhecer desde a Revolução Industrial.  Essas empresas emergentes estão surgindo a partir de uma nova estrutura de negócios baseada em tecnologia, conhecida como plataformas, as quais têm como principal atributo a orquestração de interações econômicas entre dois ou mais lados, ou mercados, criando valor entre produtores e consumidores e consumidores externos.

Este valor oferecido pelas plataformas para seus usuários, junto com a habilidade em inovar nos modelos de negócios, está revolucionando as estruturas de mercado nos mais diversos setores (comunicação, saúde, transporte, finanças, tecnologia, viagens…) e “contestando” as empresas tradicionais! Mas, apenas entregar valor aos clientes não gera grandes negócios. É imprescindível para o surgimento de negócios escaláveis e sustentáveis que exista um bom modelo de negócio. FENG ZHU e NHATAN FURR (2016) explicam que as plataformas conseguem ser mais brilhantes ainda neste ponto, apontando que: “Produtos produzem uma única linha de receita, enquanto plataformas podem gerar diversas fontes de receita.” Em 2015, várias das empresas mais bem avaliadas do mundo (em capitalização de mercado) eram empresas-plataforma, incluindo cinco das dez mais (Apple, Microsoft, Google, Amazon e Facebook).

Uma amostra clara da popularização e fortalecimento das plataformas pode ser percebida a partir da lista (mostrada à frente) divulgada pela revista online Fast Company (2016) que aponta as 10 empresas mais inovadoras de 2016, lista esta composta, em sua grande maioria, de plataformas:

 

Empresas mais inovadoras de 2016

Fonte: FastCompany (2016)

 

Um exemplo dessa grande revolução é o Uber – uma alternativa de táxi que facilita a compra de um passeio de alguém dirigindo o seu carro pessoal. A revolução causada pela empresa foi tão grande, que surgiu o termo “uberização”.

 

Uberização

 

O fenômeno da uberização nada mais é do que a aplicação do modelo de negócio do Uber nos demais mercados e soluções, fazendo com que exista hoje “uber pra tudo”: agricutura, para serviços de homecare, atendimento a pets, serviços de maquiagem, educação, hotelaria…

Um dos elementos que favorece a chamada “uberização” no Brasil é a crise econômica, que leva profissionais a buscar renda extra. Há também o desejo de trabalhar de forma menos engessada, não se submetendo às amarras de uma empresa tradicional. Acredita-se também que esse fenômeno vai revolucionar o marketing, que por sua vez tende a ficar cada vez mais orientado ao um consumidor específico.

 

 

A uberização faz com que temas importantes sejam pautados em meio as discussões:

 

  • Terceirização

 

Existem projetos tramitando no Senado Federal que discutem a questão das empresas contratarem serviços de pessoas, através da terceirização, desde que a sua atribuição não seja a atividade fim dessa empresa. Com isso, o trabalhador não estaria vinculado à empresa através de um contrato de CLT, permitindo com que ela se exima de pagar os “direitos” do mesmo. Assim, a empresa lucra mais. Para quem acredita na gerência governamental em todos os meios de produção, a “falta” do pagamento de impostos e contribuições fiscais é uma afronta ao modelo que eles acreditam como o ideal para a nação. Portanto, uberizar é fortalecer o movimento de terceirizar o serviço do trabalhador.

 

 

 

  • Economia Compartilhada

 

Na época em que o acesso é mais importante que a posse, a uberização dos serviços eleva a discussão sobre a importância da economia compartilhada, que é a prática de dividir o uso ou a compra de serviços facilitada.

Benefícios:

  1. Diminuir gastos na aquisição ou uso de algo para dois ou mais indivíduos
  2. Maior oportunidade de acesso a determinados bens e serviços
  3. Relações Horizontais: consumidor empoderado através de avaliações

Riscos:

  1. Não regulação das atividades profissionais
  2. Oficialização do “bico”
  3. “Prostituição” de mercados

 

  • Gig Economy

 

Já a Gig Economy é a economia criada pelos mercados de trabalho formados por trabalhadores temporários e sem vínculo empregatício e, do outro lado, empresas que os contratam, para serviços pontuais, e ficam isentas de regras como as da CLT.

Benefícios:

  1. Empregadores podem selecionar os melhores profissionais específicos para cada tarefa
  2. As empresas podem economizar recursos (espaço no escritório e treinamento)
  3. Trabalhadores recebem ofertas de qualquer parte do mundo
  4. Trabalhadores adaptam seus horários de trabalho
  5. Home Office
  6. Desempregados fazem “bico”

Riscos:

  1. Ausência de direitos e benefícios trabalhistas
  2. Informalidade nas relações pode gerar desgaste e estresse
  3. Confusão sobre nível Empregatício
  4. Insegurança Financeira
  5. “Prostituição” dos mercados

Na maioria dos casos, quando for se discutir Gig Economy, é necessário levar em consideração que ela é apenas uma renda complementar. Além disso, ainda que se sintam fragilizados, a maioria dos trabalhadores vêem tais opções como positivas e não apenas como últimos recursos.

 

E no futuro?

 

A expectativa é que o modelo tradicional e o criado pela uberização andem lado a lado, convivendo e se complementando. A indústria já está se adequando, não focando apenas em vender, mas também em criar negócios multilaterais com base em serviços. Quem não se atentar a esse comportamento do mercado, terá que assistir, assim como os taxistas em relação ao Uber, a concorrentes rápidos, desburocratizados e inovadores tomarem conta do pedaço!

 

Referências:

 

PARKER, G.G; ALSTYNE, M. W. V; CHOUDARY, S. P. Platform Revolution: How Networked Markets Are Transforming The Economy And How To Make Them Work For You. W. W. Norton & Company; 1. Ed., 2016.

ZHU, Feng; FURR, Nathan. Products to Platforms: Making the Leap. Boston: Harvard Business School, 2016.

COMPANY, Fast. The Most Innovative Companies of 2016. <https://www.fastcompany.com/most-innovative-companies/2016>. 2016.

http://consumocolaborativo.cc/o-que-e-economia-compartilhada/

http://epocanegocios.globo.com/Caminhos-para-o-futuro/Desenvolvimento/noticia/2017/01/economia-compartilhada.html

http://www2.cipd.co.uk/pm/peoplemanagement/b/weblog/archive/2017/03/17/gig-economy-not-a-viable-form-of-income-finds-cipd-survey.aspx

http://projetodraft.com/verbete-draft-o-que-e-gig-economy/

http://www.otempo.com.br/capa/economia/uberiza%C3%A7%C3%A3o-j%C3%A1-%C3%A9-realidade-irrevers%C3%ADvel-para-a-economia-1.1355179

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  • Audálio Ramos Machado Filho

    Uma boa aula sobre a nova Economia e a interação com novos modelos de gestão e marketing. Muito bom.