Política

Centro Político nas Eleições presidenciais de 2018

Entenda mais sobre um importante fator nas Eleições de 2018

 

 

Por Jorge Oliveira Gomes

 

 

Muito tem sido comentado sobre a forte polarização política que tem caracterizado de maneira marcante as prévias da corrida presidencial de 2018. Como nas eleições presidenciais de 1989, teríamos um centro pulverizado e corroído pela competição intraespecífica, além de uma série de candidatos outsiders (vindos de fora das elites políticas conhecidas). Em eleições majoritárias, os partidos se alinham em torno do eleitor mediano, normalmente, mas não necessariamente, localizado em algum ponto do centro político-ideológico. Existem exceções, por exemplo: a última eleição para governador do Rio de Janeiro, disputada entre um bispo ligado à Igreja Universal e um comunista. Essas exceções decorrem uma série de condições externas que normalmente são raras, mas, contudo, podem ocorrer em 2018.

Uma narrativa bastante comum em diversos círculos relativamente bem informados coloca o ex-presidente Lula e o atual deputado Bolsonaro em regiões equidistantes do centro político. Em outras palavras: para essa perspectiva, Lula e Bolsonaro seriam duas faces da mesma moeda. Dois extremistas, dois radicais, sendo que um de esquerda e outro de direita.

 

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Lula x Bolsonaro está pintando como o principal duelo das Eleições de 2018

 

Uma segunda visão lembra, corretamente, que Lula e Bolsonaro não são dois extremos simétricos. Bolsonaro está muito mais distante do centro do que Lula. É válido lembrar que, quando eleito em 2002, Lula adotou um tom moderado: colocou como vice um empresário industrial da linha têxtil, seguiu uma linha econômica ortodoxa até a reta final de seu segundo mandato, investiu no agronegócio, orgulhava-se de dizer que os empresários enriqueceram no seu governo e deu continuidade à política econômica do governo FHC, aprofundando-a, inclusive, em alguns aspectos.

Bolsonaro, por outro lado, seria um extremista puro e simples, uma espécie de Hugo Chávez da direita brasileira: militarista, anti-minorias, promotor de discursos de ódio e anti-pluralista. A lista de absurdos proferidos pelo congressista é grande. Bolsonaro já defendeu a dissolução do Congresso, o fuzilamento de FHC por conta da privatização da Vale e proferiu impropérios contra indígenas e quilombolas – utilizando, para se referir ao sobrepeso desses últimos, a expressão “arroba”, própria para porcos e bois. Esses são apenas alguns exemplos. Por outro lado, em sua fase “raiz”, no início do PT, Lula flertou abertamente com uma esquerda pouco moderada. Ao se aproximar do poder, todavia, migrou para o centro, como tenta fazer de maneira mal-ajambrada o próprio clã Bolsonaro.

 

Jair Bolsonaro pode se complicar com os eleitores medianos por seus discursos radicais

 

Muitos analistas, no entanto, desconsideram a guinada de Lula e do PT pós-impeachment. O discurso do partido e de seu líder principal é, hoje, inequivocamente de esquerda, não mais de centro-esquerda, esquerda moderada ou tampouco social-democracia. Prova disso é a posição do partido em relação a ditadura venezuelana, a defesa da heterodoxa política econômica da ex-presidente Dilma e o discurso cada vez mais aguerrido do “nós contra eles”. Essa mudança se acentuou após o conturbado processo de impeachment da ex-presidente, contudo, vem de antes, mostrando alguns traços já no fim do segundo mandato de Lula.

O ex-presidente hoje está mais distante do centro e adota um tom muito menos conciliatório do que foi sua marca. Dessa maneira, é válido ressaltar que um segundo turno entre ele e Bolsonaro representa sim um cenário de polarização aguda, entretanto, os dois seriam extremos assimétricos e de modo algum reflexos um do outro com sinais ideológicos invertidos.

Em relação aos outros candidatos, também existe alguma confusão por parte dos analistas. Alckmin, no contexto atual, é forçadamente visto como o típico candidato de centro. Ligado a alas controversas da PM e membro da Opus Dei, Alckmin dificilmente seria vendido como “centro” em outros contextos. Contudo, no atual cenário, sua moderação no falar, sua discrição e seu tom ameno acabam o pintando como alternativa factível de centro.

 

Dória estava surgindo como um nome forte para 2018, mas parece que não conseguiu engrenar

 

Dória, que diz “respeitar Bolsonaro”, por um breve momento tentou se vender como “terceira via”. Está, contudo, mais para Trump do que para Macron. Dória se perdeu no anti-petismo fácil e na própria demagogia caricata e parece carta fora do baralho em 2018. Marina seria uma típica candidata de centro-esquerda. Entretanto, dificilmente terá chances reais de passar para o segundo turno por conta de sua frágil estrutura partidária e da má condução da recém criada legenda.

É fundamental lembrarmos que o candidato de centro que precisamos não é aquele ou aquela que fica em cima do muro e não opina, mas que junta, sem receios de ofender militantes, instrumentais próprios de um polo e de outro do debate político para combater os problemas concretos que o país enfrenta.

 

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