Entenda a greve dos caminhoneiros

TUDO O QUE VOCÊ QUERIA (E NÃO QUERIA) SABER SOBRE A GREVE DOS CAMINHONEIROS

 

 

Por Jorge Oliveira Gomes

 

 

Há uma semana o Brasil está com várias de suas rodovias e portos travados por conta da greve dos caminhoneiros. Hospitais, mercados, escolas, postos de gasolina e praticamente toda a economia de um país dependente das rodovias estão sendo prejudicados. O que está por trás de tudo isso? Como se posicionar? Quais os atores envolvidos? Para facilitar sua pesquisa, elencamos 5 pontos importantes para que você possa formar sua opinião. Vamos a eles:

 

1) O que está por trás da alta dos preços?

O preço da gasolina está caríssimo, não só no Brasil, mas no mundo, porque está seguindo a flutuação e a dinâmica do câmbio e dos preços de mercado. A OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) é um cartel formado pelas 14 economias que mais exportam petróleo no Mundo. Ela geralmente está por trás das altas ou baixas globais no preço dos combustíveis a base de Petróleo. Em 1973, por exemplo, o mundo viveu o “Choque do Petróleo”, uma retaliação dos países exportadores de petróleo (em sua maioria árabes) ao apoio americano a Israel na Guerra do Yom Kippur. Os preços na época subiram 400%. No atual momento, a alta generalizada dos preços dos combustíveis derivados do petróleo ocorre devido uma diminuição deliberada na produção de petróleo por parte dos países da OPEP.

Contribuiu para isso a crise política, econômica e humanitária da Venezuela, país membro da OPEP e que tem entre seus maiores importadores de petróleo, ironicamente, os EUA. Ajudam a agravar o quadro também a desastrosa decisão do presidente americano Donald Trump de acabar com o acordo nuclear com o Irã. Pelo acordo, o Irã abria mão do uso civil de tecnologia nuclear com urânio enriquecido, que pode ser usado também para fins militares. Durante a vigência do acerto, diversos países suspenderam suas sanções ao petróleo iraniano, o que tornava o preço do petróleo mais barato. Em um gesto arbitrário, o monocrático Trump pôs fim a esse compromisso entre EUA e Irã, fazendo os preços voltaram a subir, já que o Irã também é membro da OPEP e grande exportador de petróleo.

 

 

2) Como está o Brasil nesse cenário?

No Brasil, a alta do preço da gasolina e outros derivados do petróleo é agravada pela grande quantidade de impostos federais e estaduais sobre o consumo. Contudo, o estado está precisando urgentemente de caixa e especialistas alertam que esse não é o melhor momento para cortar impostos ou criar subsídios. Os danos à Petrobras (recentemente saída de uma situação de quase falência devido à má gestão, corrupção e ingerência política) podem ser colossais. Além disso, o congelamento de preços pode ter consequências péssimas para a economia, como a formação de um mercado negro, excesso de demanda e escassez ainda maior de bens. No governo anterior, os preços da gasolina foram controlados artificialmente numa tentativa de frear o aumento da inflação. Essa política gerou o endividamento da empresa. A Petrobras (saiba mais aqui) chegou nessa época, inclusive, a importar combustível mais caro para vender mais barato no mercado interno.

Não é de hoje que o Brasil se depara com tais empasses. Na época do Choque do Petróleo, em 1973, uma das saídas encontradas pela ditadura, na batuta de Geisel, foi incentivar a produção nacional de álcool, através do programa Pró-Álcool. Contudo, a saída desenvolvimentista, apostando na intervenção estatal, não foi tão bem sucedida: houve aumento da dívida pública em consequência dos excesso de subsídios e aumento no preço de certos gêneros alimentícios devido à produção de cana. Além disso, após a normalização do preço da gasolina, a diferença do preço entre álcool e gasolina se tornou irrisória e o setor alcooleiro permaneceu subutilizado. Atualmente, por conta da baixa artificial do preço da gasolina durante o período anterior, o setor alcooleiro voltado para combustíveis permaneceu sucateado. Além disso, o mercado internacional de álcool é praticamente inexistente.

 

Fonte: R7

 

O Brasil possui reservas de petróleo, porém, sua extração é bastante cara e difícil, pois grande parte das reservas se encontra no chamado “Pré-Sal”, reservas subterrâneas a sete mil metros de profundidade abaixo do nível do mar. Com a descoberta do pré-sal houve um período de euforia fiscal e excesso de otimismo que, juntamente com outros fatores, desembocou na crise econômica que vivemos hoje. Nosso país também possui diversas refinarias, porém, elas se encontram ociosas e muitas foram atingidas por escândalos de superfaturamento, como ocorreu com a refinaria de Abreu e Lima, a mais cara do mundo (!), feita em parceria com o então presidente venezuelano Hugo Chávez.

 

3) O que querem os caminhoneiros?

A greve dos caminhoneiros é um movimento horizontal e sem lideranças claras, o que torna difícil a negociação. De início, a demanda era ligada a diminuição do preço do diesel. É importante lembrar que a diminuição no preço do diesel acarretaria naturalmente no aumento do preço da gasolina. Contudo, hoje o movimento ganha contornos político-ideológicos e há setores pedindo desde intervenção militar até a retirada total dos impostos. As pautas tem aumentado e direita e esquerda nacionais possuem narrativas distintas sobre a greve. Já há suspeitas claras e bem fundamentadas de que grande parte do movimento na verdade é um “locaute”, ou seja, movimento comandado por empresários e patrões.

A Polícia Federal já está realizando investigações nesse sentido. É importante esclarecer que o movimento dos motoristas de caminhão não reflete nenhuma consciência de “classe” ou tampouco uma “luta” por melhorias estruturais. O recrudescimento do preço da gasolina e do diesel afeta igualmente a toda a população, porém, os custos desse aumento são mais concentrados para o grupo dos frentistas e caminhoneiros. Essa é uma categoria relativamente pequena e coesa, o que facilita enormemente a ação coletiva do grupo, como destacou o economista Mancur Olson, no seu clássico “A Lógica da Ação Coletiva”. Como o Brasil é um país altamente dependente das rodovias e dos modais motorizados, ficamos reféns de uma categoria.

 

Caminhoneiros bloqueiam faixa da Rodovia dos Imigrantes, em São Paulo (Paulo Whitaker/Reuters)

 

4) Apoio à greve

Nosso processo constituinte em 88 foi marcado por bastante corporativismo e ação predatória de grupos de interesse. A tradição corporativista brasileira é antiga e ajuda a entender o apoio difuso de vários setores da população à greve, que ainda conta com uma sedutora pauta de redução de impostos. Com isso acaba ganhando simpatia tanto de setores da esquerda como de setores da direita. A esquerda apoia a greve pois visa atingir o governo Temer e dar tons “nostálgicos” a era Dilma. Acaba incorrendo no equívoco histórico de acreditar que “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”. Já a direita se agrada da pauta de redução de impostos e flerte com o autoritarismo (saiba mais aqui).

 

5) Reação do governo e impacto político

A reação do governo foi considerada tardia e tímida. Os órgãos de inteligência do Executivo e do Exército falharam em prever a greve e em dimensioná-la. Além disso, não houve planejamento e o próprio Exército sofre com a falta de gasolina. Pioram o quadro a popularidade pífia do presidente e sua falta de legitimidade eleitoral e moral. O cenário de anomia social galopante favorece a popularidade de saídas autoritárias e/ou populistas. Nesse sentido, a candidatura de Bolsonaro é a principal beneficiada pelo atual momento, já que o referido candidato cresce na base do “quanto pior, melhor”.

 

O pré-candidato à presidência da República Jair Bolsonaro, do PSL (Partido Social Liberal).

 

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