Joaquim Barbosa: nova força na corrida presidencial

Entenda melhor a recente entrada do ex-ministro do STF na arena política nacional

 

 

Por Jorge Oliveira Gomes

 

 

Em uma semana onde só se falou da prisão do ex-presidente Lula, um acontecimento político bastante importante se viu obscurecido e relegado a segundo plano pela incessante cobertura midiática em torno da figura do líder petista. Trata-se da filiação do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (saiba mais aqui), Joaquim Barbosa, ao Partido Socialista Brasileiro, o PSB. Segundo pesquisa recente, Joaquim já entra com bastante peso na corrida presidencial, abocanhando quase 10% das intenções de voto, encontrando-se à frente de jogadores experientes como Ciro e Alckmin.

 

Em cenário sem Lula, Jair Bolsonaro lidera as preferências para no primeiro turno. Joaquim Barbosa aparece empatado em terceiro com 9% das intenções de voto. Fonte: Datafolha

 

Joaquim surfa na onda “apolítica” que cresceu com a crise de representação e pelos escândalos de corrupção tectônicos alardeados pela imprensa. O ex-ministro do STF tem uma carreira de superação: filho de pedreiro, menino pobre e negro, foi de faxineiro a juiz do Supremo Tribunal Federal, não sem antes ter passado por diversos cargos da administração pública. Joaquim reúne alguns atributos bastante prezados pela população: perfil linha dura com a corrupção, pouco apreço pela “politicagem”, perfil meritocrático/técnico e passado humilde.

Muitos candidatos tentaram emular alguns desses aspectos sem muito sucesso: Dilma, Dória e até mesmo Alckmin. Contudo, é necessário frisar: Barbosa não se veste de um perfil construído artificialmente de burocrata pouco chegado ao diálogo. Ele de fato é esse personagem. Isso não é necessariamente auspicioso. Terá via de regra, se eleito, de conversar e ter paciência com um Congresso esfarrapado. Terá, também, que fazer concessões, firmar compromissos e ter jogo de cintura – isso se não quiser ter o mesmo destino que Dilma Rousseff. Claro: as diferenças entre o ex-ministro e a ex-presidente são muitas e óbvias: intelectuais, de formação, de perfil político, etc. Porém, chamam a atenção duas semelhanças em particular: o pouco apreço ao debate e o perfil linha-dura.

 

Joaquim Barbosa teve papel destacado como ministro do STF no julgamento do Mensalão

 

Joaquim foi indicado por Lula ao STF, por sugestão de Frei Betto e José Dirceu. Pesaram na sua indicação questões de representação, não de afinidade política. Já ministro, foi inclemente com o PT e, inclusive, condenou alguns dos que o indicaram, mostrando independência. O perfil ideológico de Barbosa ficou claro pela sua atuação no Supremo: é progressista. Basta ver suas posições nas questões referentes ao aborto de fetos anencéfalos e sobre a legalidade das cotas raciais. Criticou o impeachment da ex-presidente, sem, no entanto, apelidá-lo com a alcunha partidário-ideológica de “golpe” (saiba mais aqui).

Parece ser um nome de centro-esquerda, o que deve causar confusão na esquerda partidarizada brasileira, acostumada e adestrada a criticar o Judiciário como sempre de direita. A confusão permanece no âmbito da direita, chateada com a aposentadoria precoce do ministro e com sua postura crítica em relação ao impeachment. No âmbito econômico, o perfil do ex-ministro permanece indefinido.

 

Há a possibilidade do surgimento de uma chapa entre Barbosa e Marina Silva

 

Barbosa parece ser o outsider perfeito para o momento político vivenciado pelo país: reveste-se de um manto de “ética” que se confunde com um “quê” de heroísmo, é “novo” na política, foi de fato um ator importante na história recente do país e tem um histórico pessoal que emociona. Ao contrário de Bolsonaro, sua retórica “raivosa” foi além do discurso puro e simples. Foi figura chave na condenação de atos de corrupção no Mensalão. Naquele episódio ficou patente também seu perfil pouco dialógico e avesso à negociatas.

Uma possível chapa com Marina Silva seria bastante competitiva do ponto de vista ético e programático, permanecendo, porém, os problemas relativos à futura governabilidade e relação Executivo-Legislativo. Fica certo, porém, que a candidatura de Barbosa injetará mais autenticidade no discurso anti-sistema até então encabeçado pela figura pouco agregadora e não aprazível de Bolsonaro. Os próximos passos da corrida permanecem incertos, mas a entrada de Barbosa pode ser vista de maneira positiva, ao menos com base nas demandas das ruas e do ponto de vista da representação racial.

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