Mobilidade social: expectativa versus realidade

Entenda melhor este complexo assunto

 

 

Por Manuela Pereira

 

 

Se você nascer em uma família de baixa renda, quais são as chances de alcançar seu lugar ao sol independente do seu meio social? Existem duas formas de a gente tentar responder a essa pergunta. A primeira delas é a chamada expectativa. Nós sempre fazemos projeções, pensando se nossa situação estará melhor ou pior que a atual no futuro. Isto é, independente de questões de sorte ou conexões, temos a esperança de aumentar nossa renda, crescer profissionalmente, etc. A segunda é através dos índices de mobilidade intra e intergeracional, os quais analisam a capacidade dos indivíduos de ascender em sua renda tanto ao longo da vida, quanto em relação aos seus pais, respectivamente.

Na ciência econômica, as percepções de mobilidade social foram abordadas por Hirschman e Rothschild. Conhecido como efeito túnel, os autores fazem uso de uma analogia para explicar o bem-estar individual como um túnel com duas pistas A e B (no mesmo sentido) e que registra trânsito intenso. Os veículos da pista A começam a se movimentar enquanto que os da pista B permanecem no mesmo lugar. Baseados na experiência positiva de A, os indivíduos de B confiam que também haverá movimentação na sua pista, experimentando – ao menos inicialmente – sentimentos de contentamento. O fator implícito nessa condição é o otimismo: dias melhores estão por vir.

 

Pirâmide econômica brasileira em 2015. Dados: IBGE

 

Esse exemplo hipotético nos mostra como o sucesso dos outros é traduzido em uma satisfação (inicial) dos indivíduos, deixando de lado sentimentos tão fortes como a inveja. Isso seria resultante não de um reflexo de bondade ou altruísmo, e sim porque os indivíduos são capazes de sentir empatia e ter a esperança de também alcançar no futuro um sucesso semelhante ao daqueles que o rodeiam. Mas quais seriam os efeitos práticos de tais percepções?

Uma das possíveis consequências desse otimismo ou pessimismo pode estar traduzido nas preferências dos indivíduos por redistribuição de renda. É a chamada hipótese POUM (Prospect of Upward Mobility). Apesar de serem potenciais beneficiárias de políticas redistributivas, pessoas pobres mostrariam baixos níveis de apoio à redistribuição sempre que alimentassem expectativas de mobilidade futura ascendente. Assim, as preferências individuais seriam moldadas pelo histórico de vida e por inferências sobre o futuro, e não dependeriam unicamente da situação atual.

 

De acordo com o Thomas B. Fordham Institute, uma instituição especializada em estudar a educação, cursar o ensino superior é uma das principais fontes de mobilidade social e econômica

 

Evidências empíricas sobre essa perspectiva de mobilidade ascendente não se confirmam para a América Latina. Estudos apontam que a região apresenta um perfil pessimista quanto as suas experiências de mobilidade passada. Os latino-americanos consideram que a sua situação socioeconômica atual é a mesma de seus pais e por isso o apoio a redistribuição de renda na região ainda é proeminente entre os mais pobres.  Já aqueles que acreditam estar no mesmo status socioeconômico que seus pais e que o mercado, afirmam estar sob condições sociais injustas.

Isso quer dizer que aqueles que consideram que houve forte melhoria na sua situação econômica com respeito aos últimos cinco anos são os menos favoráveis à redistribuição. Esse resultado mostra a importância das experiências de mobilidade passada nas preferências atuais das pessoas.

Quando se analisa as expectativas de mobilidade futura, na América Latina em geral, e no Brasil em particular, o grau de otimismo com o futuro não reduz – ao contrário, aumenta – as aspirações por uma distribuição mais igualitária e uma intervenção do governo a fim de reduzir desigualdade.

 

Em verde, os países da América Latina. Estas nações enfrentam forte dificuldade na mobilidade intergeracional

 

Esse pessimismo, de acordo com dados recentes, parece se confirmar. Segundo Relatório do Banco Mundial, Fair Progress? Economic Mobility across Generations around the World, a mobilidade intergeracional estagnou nos últimos anos em várias partes do mundo e é muito menor, em média, nas economias em desenvolvimento do que nas economias de alta renda. Isto é, na maioria desses países, ascender do nível de pobreza até a camada mais rica da sociedade é mais difícil que nos países desenvolvidos. Para se ter uma ideia, regiões como África e Sul da Ásia tem as médias de mobilidade mais baixas do mundo.

Ainda, segundo relatório da OCDE, o Brasil tem um péssimo desempenho quando se trará de mobilidade intergeracional. O tempo médio para que os filhos das famílias dos 20% mais pobres da população atinjam a renda média no Brasil é em torno de nove gerações. Em perspectiva comparada, entre os países da OCDE, o Brasil só perde para Colômbia, onde o tempo médio é de 11 gerações.

De uma maneira geral, A expectativa é que os países tivessem padrão semelhante ao da Dinamarca onde essa mobilidade intergeracional ocorre em média em duas gerações. Mas a realidade nos mostra que diversos fatores são apontados como entraves a essa mobilidade, entre eles a desigualdade de renda. A questão que fica é como países semelhantes ao Brasil ou a Colômbia podem sair desse ciclo vicioso de uma baixa mobilidade intergeracional e uma concentração de renda nas mesmas pessoas ou famílias.

 

Referências

 

Relatório do Banco Mundial: http://www.worldbank.org/en/topic/poverty/publication/fair-progress-economic-mobility-across-generations-around-the-world

Relatório da OCDE:  https://read.oecd-ilibrary.org/social-issues-migration-health/broken-elevator-how-to-promote-social-mobility_9789264301085-en#page1

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