Rex TIllerson e a Doutrina Monroe: de volta para o futuro?

Entenda melhor sobre este importante assunto da política internacional

 

 

Por Jorge Oliveira Gomes

 

 

Em recente visita à América Latina, o secretário de Estado norte-americano Rex Tillerson, nomeado por Trump, ressuscitou uma doutrina de 200 anos atrás. Em seu primeiro tour pela América Latina, com visitas ao Caribe, América do Sul e México, Tillerson, em discurso oficial, louvou a chamada “Doutrina Monroe”, segundo ele, claramente um sucesso. A menção a essa doutrina foi considerada uma gafe histórica e uma falta de tato diplomático. Um rápido passeio pela história das Américas nos ajuda a entender o tamanho do deslize histórico.

Logo após sua independência da Inglaterra, os Estados Unidos da América, sob comando de George Washington, emplacaram um política isolacionista, buscando distanciamento dos interesses europeus. Algum tempo depois, entretanto, com a independência das colônias latino-americanas, os EUA ofereceram um apoio solidário e estratégico a essas novas Repúblicas. A queda das monarquias representava um contexto mais favorável para os EUA, recém-independentes da coroa britânica. Nessa época, é importante lembrar, as potências europeias ainda olhavam com nostalgia para suas ex-colônias.

 

James Monroe, presidente dos Estados Unidos no início do Século 19

 

Nesse tocante, o presidente James Monroe (saiba mais aqui), já em 1823, propôs uma nova abordagem nas relações internacionais americanas, em famoso discurso ao Congresso. Segundo ele, os continentes americanos, em virtude da condição livre e independente que adquiriram e conservavam, não poderiam mais ser considerados como suscetíveis de colonização por nenhuma potência europeia. A América seria “para os americanos”. Dessa maneira ele visava afastar os interesses das potências europeias em relação aos Estados Unidos e aos seus vizinhos.

A doutrina Monroe afirmava que os Estados Unidos não podiam intervir na Europa quando ocorresse conflitos regionais, do mesmo modo que os interesses americanos não poderiam ter interferência alguma de um país europeu. A nova perspectiva americana foi recebida com gratidão pelas novas repúblicas latinas e trouxe uma onda “americanista”, com mimetismo institucional de diversas características do norte. Interessante lembrar, inclusive, que, com a queda da monarquia, o Brasil passou a ser chamado de “Estados Unidos do Brasil”, numa clara referência ao “irmão do norte”. Símon Bolívar, herói de Hugo Chavez e símbolo do regime socialista venezuelano, por exemplo, mantinha uma cordial relação com os EUA. Joaquim Nabuco (veja nossa matéria sobre ele) e Rui Barbosa (saiba mais aqui) também tinham relações amistosas com representantes dos EUA.

 

Charge representando a Doutrina Monroe

 

Nesse ponto você deve estar se perguntando qual seria então o problema da Doutrina Monroe. A questão é que a Doutrina Monroe foi o começo aparentemente inofensivo da hegemonia americana na América Latina. Pouco tempo depois, a Doutrina Monroe descambou na política do “Big Stick”, com o presidente Theodore Roosevelt. A perspectiva do “Grande Porrete” pregava um grande poderio militar e se apropriava de um antigo provérbio africano: “fale macio e carregue um grande porrete”. Essa política degringolou na invasão americana às Filipinas, na anexação do Havaí como território americano, nas ingerências americanas fomentando a independência do Panamá em relação à Colômbia (visando a construção do Canal do Panamá) e no vergonhoso tratamento dado a Cuba e as chamadas “Repúblicas das Bananas” (como a Costa Rica). Há inúmeros exemplos.

A América Latina se transformou basicamente num quintal americano e os EUA cada vez mais se mostravam como uma potência bélica disposta a agir em nome de seus interesses sem pestanejar, mesmo que apoiando ditaduras e se metendo em assuntos internos dos países.

 

Rex Tillerson em visita oficial ao presidente do México Enrique Peña Nieto

 

Desse modo, a fala do Secretário de Estado Americano reacendeu traumas antigos no continente. Tillerson, preocupado com a cada vez mais forte presença chinesa no continente, acabou, com sua fala mal calculada, exumando fantasmas antigos e mexendo com feridas que muitos consideram ainda mal cicatrizadas. Além disso, apenas transpareceu mais ainda a completa falta de traquejo da administração Trump com temas internacionais sensíveis e controversos. A imprensa brasileira, todavia, pouco comentou o fato, talvez pelo fato do Brasil não ter sido contemplado nas visitas de Tillerson.

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